Iluminar o caminho dos invasores

Não existe patriotismo selectivo. A nossa consciência pode levar-nos a deplorar o nosso país, a desprezar as suas instituições, a desdenhar os seus valores e costumes, mas o nosso patriotismo não pode estar dependente das paixões.

Há um manancial infindável de literatura escrita sobre isto. Vemos ao longo da história da nossa civilização batalhões atrás de batalhões de homens e mulheres marcharem para a frente de batalha por uma pátria madrasta. Cientistas, políticos, soldados, poetas. Muitos deles arrastados para a oposição por pequenas rivalidades pessoais ou políticas, outros levados ao exílio por verdadeiras injustiças. O sacrifício final do verdadeiro patriota é sempre o mesmo – o de se manter firme perante os inimigos do seu povo, lutando em prol do mesmo contra o invasor.

Será talvez o triste fado dos corações apaixonados, o destino trágico que os mitos gregos nos transmitiram. Ou pode ser, simplesmente, que tudo isto seja motivado pelo opróbio de se ser um traidor. Todas as humilhações, todas as injustiças, são meras bagatelas quando comparadas com o pecado do traidor, do que abre as portas ao inimigo, do que verte o sangue dos seus em nome do estrangeiro.

Estes valores foram, em tempos, partilhados por todas as forças políticas,por todas as diferentes trincheiras. Que “Roma não paga a traidores” era uma coisa que todos, da esquerda à direita, sabiam. Contudo, como acontece em todas as coisas boas, fez-se sentir o toque da corrupção. Os rebeldes italianos que acendiam luzes nos telhados para ajudar os bombardeiros americanos, os afrancesados que corriam a apoiar Napoleão Bonaparte, os exilados de Argel a debitar na rádio as coordenadas das forças portuguesas para os ouvidos dos apaniguados de Moscovo e Washington, e tantos outros exemplos que aqui podíamos enumerar.

As tendências globalistas da esquerda favorecem esta nova forma de ver e estar no mundo. Com a excepção de alguns, a esquerda ocidental conseguiu convencer-nos que os traidores são os verdadeiros heróis e que os os heróis são os traidores. O que combate pela nação é agora apelidado de terrorista.

A direita, cada vez mais impossível de distinguir do interesse das grandes corporações e do individualismo burguês auto-destrutivo que define os seus políticos, perpetua este logro, esta apologia da traição, à sua maneira.
Guaidó, o auto proclamado presidente interino da Venezuela, é agora o foco da atenção da direita europeia. Em clara intromissão neocolonialista, vários delegados do Parlamento Europeu dirigiram-se à fronteira venezuelana para oferecerem o seu apoio ao opositor do regime de Maduro. Guaidó conta com o apoio dos seus aliados europeus, mas mais importante são os esforços movidos a seu favor pelos EUA e pelo vizinho Brasil. Pior é ver tantos políticos da direita portuguesa a fazer campanha em prol de um protegido da Internacional Socialista.

Não é fácil fazer a crítica a Guaidó. Para muitos, criticar Guaidó é apoiar Maduro. Pode ser que as actuais circunstâncias geopolíticas a isso nos obriguem, mas vejamos a nossa alternativa: ao governo socialista do sucessor de Chávez, marcado por uma série de inegáveis incompetências e políticas fracassadas, opõem-se o de Guaidó, que vai abrir a economia e as suas ricas reservas de petróleo ao domínio americano. Se Maduro é um marco negativo na história da Venezuela, Guaidó é o retorno à subserviência estrangeira e a perda do controlo sobre as riquezas naturais do país, representando um atraso significativo, um retrocesso que vai condenar a soberania venezuelana.


Não faltam em Caracas os bem intencionados. Infelizmente, à frente estes encontram-se os típicos rebeldes de última hora que sabem que vão lucrar muito com os “amanhãs que cantam”.