O que é a Europa e porque nos afirmamos por uma Europa Europeia?

As juventudes que por hoje decorrem devem perguntar-se pelo que é a Europa quando ouvem os senhores de “colarinho branco” a repetir incessantemente esta palavra… Alguns destes jovens, associados a facções políticas adversas à Europa, devem perguntar o mesmo… Aliás, mais do que isso, perguntam-se pelo que é um Europeu.

Do ponto de vista geopolítico e histórico, a Europa é delineada pelas suas fronteiras. O centro, o núcleo europeu, é constituído por nações que, embora estejam periodicamente em conflito, partilham de uma história muito semelhante desde a Alta Idade Média. São estas, essencialmente, as nações resultantes do Império Carolíngio e das suas proximidades, aquelas que constituíram, com o Tratado de Roma em 1957, a Europa conhecida como a Europa dos Seis, nomeadamente a França, a Alemanha (Ocidental à época), a Itália, Bélgica, Holanda, e Luxemburgo. Para além disso, poderíamos conceber uma segunda definição relativamente à Europa que incluiria as nações atlânticas e ocidentais, assim como a Europa Oriental, os Balcãs e a Rússia. E até como fenómeno histórico, poderíamos incluir a Turquia, herdeira do Império Otomano, cujas suas Jihads ao longo da sua história se alargaram ao território Europeu. Mas a Europa é algo bastante diferente da estrutura geográfica inerente à sua existência.

A consciência de pertencimento à Europa, ou a Europeidade, é muito mais antiga que o conceito moderno de Europa e de União Europeia. Manifesta-se sob os nomes hereditários de Roma, Grécia, Helenismo, Celtismo, Império Franco, Cristandade, Viquingues, Germânia, etc. Vista como uma tradição imemorial, a Europa é o produto de uma comunidade multimilenar da qual a sua cultura deriva das heterogeneidades e homogeneidades dos seus povos e de uma herança espiritual cujo expoente máximo é demonstrado nos poemas de Homero.

De olhos gregos, esfíngico e fatais, de cabelos românticos, cujo rosto é Portugal, assim é personificada a Europa, por Fernando Pessoa.

Tal como as outras grandes civilizações (China, Japão, Índia, o Império Persa, etc) a nossa possui profundas raízes na pré-história, alicerçando-se numa tradição específica que atravessa o tempo sob fisionomias e dissimulações mutantes. Ela foi idealizada por valores espirituais e morais que estruturam os nossos comportamentos e alimentam as nossas imaginações, até mesmo nos dias de hoje, em que a civilização e os valores ocidentais se veem ameaçados e em decadência.

Estes valores, respeitantes à Europa, são reflexões e repercussões de uma estrutura espiritual e cultural, herdada por sangue, linguagem, e pela memória e história difusa de uma comunidade. Estas singularidades fazem-nos o que somos, Europeus e não indivíduos quaisquer, mesmo quando a nossa consciência delas desapareceu.

Deste modo, e baseando-me nas doutrinas de Dominique Venner, a “tradição é o que molda e prolonga a individualidade, funda a identidade e dá significado à vida” e não uma virtude externa a si mesmo ou um meio das aristocracias e burguesias de entreter e dominar um povo, quando este é escravizado, como afirmam algumas doutrinas utópicas. A ”tradição é um “eu” que atravessa os tempos, uma expressão viva do particular dentro do universal”.

O nome Europa surgiu há 2.500 anos atrás sob Heródoto e na obra “Descrição da Terra” de Hecateu de Mileto. E não será por mero acaso ou por gosto pessoal que estes geógrafos e historiadores classificaram, os celtas entre os povos da Europa e não entre os bárbaros. Foi neste período da história que a consciência europeia e o ideal de Europeidade aflorou sob a ameaça das guerras persas. Mais uma vez, sob as palavras de Venner, é “uma constante da história: a identidade nasce da ameaça da alteridade”.

Vinte séculos após a batalha de Salamina, a queda de Constantinopla (1453) foi sofrida como uma fatalidade revestida de raiva, medo e amargura por toda a Europa. A conjuntura espacial da Europa oriental ficou transponível para a conquista otomana. A Áustria Habsburga tornara-se a última muralha do Velho Continente. No seguimento deste momento crítico, observou-se a florescência de uma consciência europeia e o renascer de um ideal de unidade Europeia. A 1452, o filósofo George de Trebizonda publicara a sua célebre obra “Pro defenda Europa”, um manifesto cujo nome de Europa substituiu a designação que durante muitos anos era referida por Cristandade.

Ainda sobre a perda de Constantinopla, o cardeal Piccolomini, posteriormente Papa Pio II, escrevera que a “parte oriental da Europa foi arrancada”. Para relatar o significado e o pathos da ocorrência, ele invocara, perante a representação espiritual e histórica da Europa, os poetas da Grécia antiga. Para ele, a catástrofe significara “a segunda morte de Homero, Sófocles, e Eurípides”.

A história mostra-nos que a Europa é uma colossal e antiga comunhão de civilizações. Sem retornar ao período megalítico das cavernas, não há um único grande fenômeno histórico vivenciado por um dos países resultantes da Dinastia Carolíngia que não tivesse sido compartilhado por todos os outros. A cavalaria medieval, a poesia épica, o amor cortês, a monarquia, o feudalismo, as Cruzadas, a emergência das cidades, a revolução gótica, o Renascimento, a Reforma e a Contrarreforma, a expansão ultra marítima, o nascimento do Estado-Nação, o barroco secular e religioso, a polifonia musical, o Iluminismo, o Romantismo, o universo e o avanço da tecnologia, ou o despertar do nacionalismo… Tudo isto é comum, exclusivamente, à Europa e apenas à Europa.

No decurso da história, cada acontecimento substancial numa Nação Europeia, simultaneamente, encontrou o seu equivalente entre os demais países vizinhos. Hoje vivemos na era da emergência do patriotismo face ao globalismo, na era da emergência de um ideal de uma Europa de nações livres e soberanas em harmonia face a uma instituição, que se proclama como unificadora, mas que na realidade e perante os tempos recentes, tem dividido nações, povos e destruído a nossa identidade. Quanto aos conflitos que contribuíram para o nosso dinamismo, embora resultando geralmente em mutações culturais e sociológicas para os povos Europeus, eles foram ditados pela competição de classes ou grupos sociais entre os diversos países, assim como pelas concorrências ou insuficiências económicas dos vários Estados, e nunca por oposições de cultura e civilização.

Vivemos num século cujas classes politicas questionam a identidade Europeia, procurando findar a nossa existência espiritual através da massiva imigração oriunda do Terceiro Mundo. Porém, os ventos que percorrem a Europa parecem estar a favor desta. Estão a chegar, mais uma vez, as eleições para o Parlamento Europeu e alguns analistas afirmam esta eleição como das mais importantes da história. O crescimento do projecto identitário e soberanista, baseado na harmonia patriótica entre as várias nações da Mãe Europa cresce e ameaça os obreiros e operários da suposta unificação, que borram as calças de medo diante da questão da identidade. Mas, como dizia o mestre Venner, a “identidade é tão importante para uma comunidade como a questão vital das fronteiras étnicas e territoriais”. [1]


[1] – Artigo com referência a expressões ou frases adaptadas da obra “O Século de 1914” de Venner, Dominique